Artigo

Sexo – apimentar demais arde

E principalmente os olhos…

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Em “Jane the virgin” (The CW), a personagem Jane – que é virgem – escreve uma carta erótica para o namorado, provando que conhecimento teórico dá certo.

Hoje eu vou falar de uma coisa que pula mais que pipoca na panela quando o assunto é escrever na internet.

Sexo.

Mais especificamente: cenas de sexo.

Digamos que para pessoas que sejam ~virgem~ no assunto, igual a mim, o sexo acaba sendo mais que um tabu ao passar para o papel, e sim certa insegurança por não ter experiência no assunto. A inexperiência pode ser uma forma de fazermos bonito, como também fazer bem feio se imaginarmos demais ou exagerarmos em uma cena para lá de quente.

É importante termos consciência de duas coisas cruciais enquanto escrevemos os nossos livros: queremos leitores e queremos leitores bem informados. Em segundo: os livros que mais fazem sucesso – além de uma capa chamativa – é um conteúdo mais picante. E quando o livro é picante demais, é melhor tirarmos um pouquinho dessa pimenta e rever melhor esse tempero nem tão crucial nos romances.

Escrever sobre sexo alimenta ‘n’ tipos de discussões, das mais tradicionais como: o tempo de duração, posições, descrições detalhadas da anatomia, e até mais sérias, como: abusos sexuais (e a polêmica romantização delas).

Por isso, é melhor responder rapidamente três perguntinhas que devem ter passado pela cabeça de vocês: putz, se ela não faz sexo, nem ela sabe escrever…  

Para escrever sobre sexo é preciso transar?

De fato não. Escrever sobre sexo é igual escrever sobre um país que você não conhece e/ou nunca visitou. Por exemplo, EUA. Se a sua personagem vai morar em Chicago, é necessário fazer uma pesquisa bem feita para não dar um fora do tipo: Fulana pegou o metrô e foi ver a estátua da Liberdade naquela tarde fria de sábado depois de levar um bolo de fulano no café X (lembrando que de Chicago para Nova Iorque uma viagem de trem dura 21 horas, segundo o Google Maps).

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“Seu cérebro é tão quente” (Jane The Virgin – The CW)

Por isso, não tenha medo de pesquisar. Pesquisar não é feio, é bonito, você aprende e ainda ganha experiência – mesmo que teórica – em grande parte dos assuntos. Apenas, saiba filtrar as suas pesquisas com alguma coisa que te dará base no que escrever.

Preciso pesquisar a fundo, detalhe por detalhe? 

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Em “Friends” Mônica ensina as sete áreas erógenas da mulher para Chandler (Warner/Reprodução BuzzFeed)

Olha, tudo depende da forma em que você pretende descrever. Você sabe pelo menos que de um beijo vem as preliminares, mãos em lugares estratégicos para que o sexo, que logo mais irá acontecer,  aconteça de forma que os personagens se satisfaçam um com o outro e que tenha o sentido de demonstrar a conexão entre os dois personagens.

Se você não é um praticante sexual ativo, não vai todo seco em um site pornô, porque isso só vai te ensinar a ter uma base bem rasa sobre o sexo. Ou seja,no pornô só se resume em chegar em lugar ‘x’ que a coisa acontece em cinco segundos ou, em outro caso muito comum na literatura cibernética que vemos por aí, a insaciedade.

Como eu sei que essa cena é ruim?

É simples, também não precisa ser o maior transão da galáxia para descobrir. Apenas perceba a cena forçada em que tudo acontece. Um erro muito comum também é a narrativa sempre voltada para o sexo.

Sexo demais e história de menos também é ruim (entenda-se MUITO RUIM). É preciso saber dosar o quanto a sua história pede um encontro mais íntimo e detalhado. Sem contar que sua história deve ter conteúdo, principalmente para mostrar maturidade no envolvimento entre o casal de personagens escolhido.

Pois, não é toda hora também que vai ter um sexo rolando, só se o cara usar viagra 24 horas pra manter o amigo a posto sempre que quiser (essa é uma das ilusões do pornô).

Uma história erótica, ou hot, chama muitos leitores principalmente pela descrição íntima dos personagens e é o caminho mais fácil para se conseguir um grande número de leitores. Mas, como tudo na vida há um porém, o erro do sexo demais e pouco conteúdo (falta de dramatizações, plot twist, por exemplo) pode desencantar logo o seu público.

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“Eu estou tão entediado” (Jane The Virgin – The CW)

Para falarmos sobre isso, e com muita propriedade no assunto, conversei com quatro autoras parceiras do SPAA que sabem escrever uma boa cena de sexo e somar com uma trama bem ligada aos personagens.

Primeiro, para falar os acertos, temos que falar dos erros mais comuns que você, leitor, pode encontrar e achar um absurdo.

1. Quando o tamanho e tempo tomam muito espaço na sua história

A autora do OK – Orange Kiss, Carol Moura, costuma ver muitos erros em histórias onde o sexo não tem hora para acabar. “Horas a fio de sexo, com o cara e a menina gozando de cinco em cinco minutos é um absurdo”, diz.

Só para esclarecer melhor o termo “horas de sexo” e “absurdo” juntos em uma única frase, li recentemente em uma pesquisa feita nos EUA que o tempo médio de sexo é de 40 minutos, aproximadamente.

Nada contra se você gosta de colocar uma medida a anatomia masculina, mas não use deliberadamente o “pau enorme” para descrever o órgão genital de seu personagem no momento do sexo. Afinal, ele tem 20cm, 35cm, 1,55m? Afinal, tamanho não é documento.

Se você molhou a calcinha com Confissões de Heloísa, você sabe muito bem do que eu estou falando. A personagem escrita pela Dira Arrais, Heloísa, em sua primeira noite de sexo selvagem (forcei, foi bem erótico, na verdade) não rasgou elogios, mas foi sincera ao descrever o amiguinho do Dr. Espinho (Fabrício, para as íntimas).

Não vou reproduzir o conteúdo na íntegra, mas ela diz que “era grande conforme seguia na proporção do corpo dele”. Pronto, não foi o tamanho que deu o orgasmo que ela precisava, mas sim a desenvoltura do doutor e a vontade dela se satisfazer também (ela não ficou parada).

2. Primeira vez

Ah, esse é um fator muito presente nas histórias postadas na internet que precisamos conversar direito. A primeira vez dói. Essa informação obtive conversando com a minha mãe (conversamos muito sobre o assunto).

“Descrever de forma romantizada a primeira vez é utópico”, explica Dira Arrais, autora do Confissões para Heloísa, Novo Horizonte e Como cão e gato , esses dois últimos , que estão à venda na Amazon, exemplificam bem, principalmente Novo Horizonte sobre a primeira vez de personagens ainda jovens. “Às vezes, a gente tá despreparada e não rola”, completa.

Primeira vez linda? Não é nada disso. Quem conta, e assina embaixo, é a autora do  conto Pra ser sincera…, Eveline Gomes. “Se tiver um orgasmo na primeira vez é lucro”. Sim, ou com certeza?

Se tem uma cena que me marcou bastante foi Flor de Mel, da Tânia Picon. Foi bem sutil, delicado e que relatou de forma bem detalhada as principais mudanças de Mel, principalmente na mente dela. A mente da mulher muda bastante após a primeira vez. Não sei muito sobre isso, mas no texto percebi o quanto Mel havia se tornado uma mulher ao lado de um homem em uma ligação totalmente íntima.

3. A fantasia do sexo além do real

Se você, mulher comum, chegou em casa depois de um dia longo de trabalho, encontra seu namorado na sala… Vocês vão direto transar?

“Ela trabalha o dia todo na rua, e quando chega o cara já quer pegar ela? Não dá”, comenta Carol. A Tânia ainda comenta um erro bem comum envolvendo coito pós 8 horas de trabalho. “Pior é quando rola uma oral”, completa.

Assistir muito filme também não faz muito bem. Já viu aquele filme da Anna Faris e o Chris Evan chamado ‘Qual é o seu número?’? Numa cena em que ela acorda ao lado de um desconhecido, Anna vai ao banheiro e passa um pouco de pasta de dente, penteia os cabelos e ainda dá uma ajeitada na aparência para não fazer feio com o carinha com quem dormiu, apenas para dar aquela falsa imagem de que acordamos lindas e cheirodas feito as modelos dos comerciais e atrizes das novelas pronta para uma rapidinha saudável de manhã.

O sexo de manhã pode até acontecer (desculpa, não consigo fantasiar sobre isso), mas beijos apaixonados e suspiros na cara do outro não rola, aliás, há grandes chances de algum dos parceiros brochar.

 

E, claro, a conclusão que não quer calar e não pode faltar nesse final de texto: Afinal, o que é uma boa cena de sexo?

A maturidade do autor conta muito para escrever (digo isso com experiência própria), não ultrapassar os limites do corpo e de tempo (afinal, o sexo só é insaciável para quem é ninfomaníaco, e para isso é necessário um tratamento).

E claro, muita leitura. Até para quem faz.

A leitura não estimula apenas a sua criatividade, mas também sua forma de pensar sobre o sexo como um todo. Confesso, que eu tinha esse pensamento utópico de que tudo era muito lindo no sexo, até que li “Confissões de Heloísa”, em que mudou completamente a forma de como eu via o ato sexual em si. Foi graças ao texto da Dira que a obra me mostrou o sexo maduro, verdadeiro e sim, com muito amor.

E, claro, ter uma noção do impacto da cena de sexo presente na sua obra para os seus leitores. Às vezes, personagens que não sejam tão intensos não precisam ser analíticos ou fazerem loucuras na cama, já se a sua trama pedem personagens mais explosivos e que saibam usar a sensualidade ao seu modo, uma cena mais descritiva pode contar muitos pontos para os seus leitores. Ou seja, batendo na tecla novamente: saiba dosar a descrição do sexo que seu personagem e o que sua obra pede.

E, mais uma vez lembre-se: sexo demais e história de menos afugenta leitores.

Ficou curioso com os livros que citei? Então, conheça  Cansei de ser bonita e Flor de Mel, da Tânia Picon; Ok – Orange Kiss, da Carol Moura; Confissões de Heloísa, da Dira Arrais e Pra ser sincera…, da Eveline Gomes, disponíveis no Wattpad.

Até a próxima,

Ariane Godoi

Autoras SPAA

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Um comentário em “Sexo – apimentar demais arde

  1. Oi Ariane!! Obrigada pelo texto! Escrevo livros com cenas Hot, mas nunca com muitos detalhes! Sempre achei que detalhes intensos eram demais, mas depois disso que vc descreveu, que não tem necessidade detalhar tanto, estou mais tranquila e satisfeita com o que escrevo! Obrigada também pelos livros citados, vou ler todos e tenho certeza que vou aprender muito!
    Bjs Chris

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