Artigo

As novelas mexicanas e os seus clichês

Quando você quer escrever um livro, você tem um objetivo: fugir do clichê. Se formos pensar bem, na realidade estamos cercados por clichês. Uns podem ser bons, mas também ruins. É por isso que eu vou esquematizar aqui para vocês alguns defeitos que as novelas mexicanas fazem para que isso te ajude a refletir sobre o uso de clichês e como melhorar sua obra. Vamos lá?

usurpadora-novela-mexicana-sbt-28475
“A Usurpadora” (1998) reprisada sete vezes no SBT foge do clichê, mas derrapa no excesso de drama (M de Mulher)

A mocinha: batalhadora, boa, mas sofredora. Ah, e precisa ser muito bonita. Tem uma paixão proibida pelo mocinho. [lembre-se em “A Feia mais bela”, ela ficou bonita no final…]

O mocinho: justo com os próximos, um pouco rancoroso, macho alfa da novela, noivo ou se relacionando com uma piranha. Tem uma paixão proibida pela mocinha.

E pronto: temos uma novela mexicana.

Novelas mexicanas não são ao todo ruim, na realidade elas têm um modelo de história já ultrapassado. Se formos levar em conta, há 70 anos que essa fórmula é reusada sem dó pelos escritores. A história de novelas começou muito antes da televisão.

opmw76
“Ultrapassada? Pense bem, catadora” (Soraia – Maria do Bairro)

Sabemos que o romance é uma novela. Como assim? Há o romance – estilo literário, em que narra de forma paralela várias ações –  e há o romance de novela ou conto, que narra várias ações de formas individualizadas. Mas isso é muito técnico, pois o termo novela se popularizou na TV.

Só que nas rádios tínhamos as radionovelas, que surgiram em Cuba, nos anos de 1940. E foi nelas que as novelas mexicanas até hoje se inspiram.

Para entendermos melhor: a Era do Ouro do Rádio foi na década de 40, com isso vieram as radionovelas. Histórias longas de mocinhas sofridas querendo viver seus amores impossíveis. Essas histórias costumavam durar anos. Quem estudou Comunicações Sociais ou Radio e TV sabem da importância e o impacto que a radionovela “O Direito de Nascer” (1950) teve no Brasil.

A carga dramática daquela época era justamente para tocar o coração das ouvintes do sexo feminino. Sim, as donas de casa depois de cuidar da casa, dos filhos e do marido, sentavam-se em uma cadeira e sintonizava o rádio para saber qual dolorosa escolha a mocinha teria naquele capítulo.

E quando a TV surgiu, a novela perdeu o prefixo “rádio” e passou a dominar as programações. Enquanto que aqui no Brasil vemos um desenvolvimento de alguns temas (mesmo que clichês) e tabus sendo quebrados nas produções, além de investimentos para levarem qualidade de cinema aos telespectadores, a novela mexicana viveu presa para sempre nas radionovelas cubanas.

Problematização batida

5
Cheguei (de forma triunfante)

É uma verdade que o romance pode ser contado e recontado infinitas vezes, porque no fim serão duas pessoas passando por diversos problemas para conseguirem ficar juntas e felizes.

As novelas mexicanas têm disso, porém esses problemas se resumem a tramoias e golpes de pessoas próximas. Os temíveis vilões malvados e perversos estão dispostos a tudo para conquistarem o que eles querem e ferrar com a vida dos mocinhos.

Caracterizações ultrapassadas

Sabe no começo em que disse que a mocinha deveria bonita? E o mocinho também. Na realidade é um must have nas novelas mexicanas.

nzrewm
Mato com o make em dia, se deixar… E eles deixam.

Além disso, os vilões sempre têm que ter uma cara carrancuda. Sempre estressadas e tramando para ferrar alguém. Desde o pobre personagem secundário até o mocinho.

Voltando a beleza: se vocês repararem bem, eu sempre lembro da abertura da novela “Abismo de Paixão”, que está passando no SBT, em que os mocinhos aparecem mostrando seus atributos corporais: vestidos molhados, decotes, sem camisa – também molhados, e muitos, muitos beijos apaixonados. Não esquecemos das lágrimas, porque se uma coisa que não falta é o excesso de drama.

Excesso de drama

As tramas por si só são melodramáticas. Os problemas atingem a todos, e todos choram. Desde o pai da Mia Collucci (Anahí – em “Rebeldes”) querendo levá-la Paris no dia do aniversário dela, a perda de um ente querido, como quando Maricruz chora ao saber que o avô morreu em “Coração Indomável”.

51020948
No fundo mesmo, eles são emos ao invés de Rebelde… Que chorões!

Saiba que ao montar o seu personagem, a carga de drama tem que ser controlável. Se for muito na onda das novelas mexicanas, a mocinha chora até quando uma formiga morre, então, vamos controlar.

 

 

 

 

História crível

Depois de tantas armações, muitas juras de amor, juras de ódio, separa e volta, os mocinhos finalmente ficam juntos. Esse ciclo vicioso é o que mantém as novelas mexicanas.

usurpadora-5
Tudo é à flor da pele nas novelas

Sabemos que por conta do excesso de drama, muitas coisas acontecem à flor da pele nas novelas mexicanas. Então, uma simples fofoca: “José Fernando está noivo de Paulina” é motivo de lágrimas e uma constatação da mocinha “Não posso mais ficar com José Fernando porque ele está noivo de Paulina”.

Ou, nas piores, o vilão tenta agarrar a mocinha, beija-a a força, vemos que ela não quer, e quando é flagrada pelo mocinho, ele se acha corno. E vai embora sem ouvir explicações.

E então no começo a mocinha se humilha, mas depois de tanta sacanagem não é bom ficar ferindo o orgulho de graça. Quando assisto, fico pensando: ah, eu já teria dado um pé na bunda do ser há milênios!

É que assim, no começo a primeira separação faz até sentido, mas quando as coisas começam a ficar cansativas, essas “vinganças” perdem o sentido e a história se perde.

Um exemplo: “Coração Indomável”, Maricruz e Otávio se separam por diversas vezes, seja pelos vilões que estão desde o início, a novos. (na Netflix pulei mais de 40 capítulos para ver o final). E isso cansa.

Sem contar que quando você, autor, também se cansa, percebe-se o quanto a trama se enrola. Pontos ficam abertos e erros de segmento podem causar  estranhamento para seus leitores.

Denominação de mocinhos e vilões

O mundo não é bom, mas também não é ruim. Quando você monta um personagem, um antagonista, por exemplo, tem que pensar bem no tipo de influência que ele terá dentro de sua obra.

kedjt4
O kisuco ferve nas novelas mexicanas!

Os vilões das novelas mexicanas buscam destruição em cima de destruição, e isso meio que começa a perder o sentido. Enquanto os mocinhos vivem no mundo maravilhoso da ingenuidade.

Para montar um personagem: todo cuidado é pouco. Ingenuidade ou maldade demais enfraquecem a ideia inicial e do objetivo de seu personagem.

Tente deixar os personagens mais próximos da realidade: cometemos erros, uns menos graves e outros mais graves. Desde roubar o namorado da amiga, ou puxar o tapete de alguém que  trabalha com você  e a matar uma pessoa (isso são ideias hipotéticas, ok?).

Lembre-se: para montar uma história é preciso foco, não fuja muito da realidade, a menos que você tenha um bom argumento para isso (como na Fantasia, por exemplo, em que se cria um mundo paralelo, mas isso fica para um assunto no próximo post).

otavio2by2bmaricruz
Uma boa história não enrola muito. Mão na massa!

Ariane Godoi

Autoras SPAA

 

Anúncios

Um comentário em “As novelas mexicanas e os seus clichês

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s